domingo, 10 de março de 2013

POR QUE A DESGRAÇA ALHEIA FAZ SUCESSO?



Por Ilana Casoy

ilana-casoy-schadenfreude-caso-novela-id
No senso popular, ser criminoso é uma escolha pessoal e são irrelevantes as questões de ordem social, psicológica ou biológica como causas muitas vezes inseparáveis da grave criminalidade. Acredita-se na eficiência de convencer as pessoas com penas cada vez mais altas e que o castigo é grande e o crime não compensa, e com este método os índices de criminalidade poderiam finalmente chegar à zero. Ainda hoje, no Brasil, emendas a Constituição são propostas para que, nos casos de crime hediondo e sequestro, a pena possa ser de prisão perpétua. O ganho político deste tipo de discurso, de acordo com os conceitos vigentes de educação, é indiscutível. Há que se modificar o conceito, o valor, antes que se possa pensar num direito penal moderno e humano.
Ainda assim, quando tivermos conseguido educar uma cultura ocidental inteira, nos restará ainda lutar contra o sentimento de schadenfreude, definido com palavra alemã que tem sua origem etimológica derivada de schaden – adversidade, dano, e freude – alegria. Trata-se do prazer que o ser humano sente com a desgraça alheia. A própria Bíblia parece reconhecer esta “alegria”, quando a estabelece como não devemos nos alegrar com o fracasso do inimigo, no Livro dos Provérbios 24h17min – 18:
Podemos assistir o schadenfreude atingindo a massa ao nos deparamos com os altos índices de ibope alcançados quando os telejornais mostram prisões, e os suspeitos são filmados sendo algemados e expostos ao público, quando aglomerados de pessoas vão a locais de crime “assistir” ao vivo os acontecimentos, quando investigados são execrados pela opinião pública antes mesmo de serem julgados. É o que o povo, em sua simples sabedoria e linguagem, chama de “alma lavada”.
A audiência alcançada pelos últimos capítulos da novela das nove reforça esse conceito. Ali, todos têm antecedentes criminais dos mais variados: tentativa de homicídio, cárcere privado, lesão corporal, abandono de incapaz, furto, estelionato, exploração de trabalho infantil, extorsão, roubo, rufianismo e homicídio. Resta saber se seríamos atingidos pelo schadenfreude ao ver os “bons” também punidos, depois de conhecer profundamente os motivos de cada um, ou se a sensação de “alma lavada” também seria sentida em relação à impunidade das personagens com “bons motivos”, absolvidas por conhecermos a história inteira de cada um. Essa chance os inocentes da vida real não alcançam!

Ilana Casoy é especialista em Criminologia pelo IBCCRIM, com Treinamento em Investigação e Perícia Forense em casos de homicídio pelo U.S. Police Instructor Teams. Atualmente, é membro do NADIR – Núcleo de Antropologia do Direito da Universidade de São Paulo. Autora dos livros: Serial Killer – Louco ou Cruel Serial killers – Made in Brasil, O Quinto Mandamento – Caso de Polícia e A Prova é a Testemunha.
Fonte>http://id.discoverybrasil.uol.com.br/ilana-casoy-saiba-mais-sobre-schadenfreude/

Nenhum comentário:

Postar um comentário