Por Ilana Casoy

No senso popular, ser criminoso é uma escolha
pessoal e são irrelevantes as questões de ordem social, psicológica ou
biológica como causas muitas vezes inseparáveis da grave criminalidade.
Acredita-se na eficiência de convencer as pessoas com penas cada vez mais altas
e que o castigo é grande e o crime não compensa, e com este método os índices
de criminalidade poderiam finalmente chegar à zero. Ainda hoje, no Brasil,
emendas a Constituição são propostas para que, nos casos de crime hediondo e
sequestro, a pena possa ser de prisão perpétua. O ganho político deste tipo de
discurso, de acordo com os conceitos vigentes de educação, é indiscutível. Há
que se modificar o conceito, o valor, antes que se possa pensar num direito
penal moderno e humano.
Ainda assim, quando tivermos conseguido educar
uma cultura ocidental inteira, nos restará ainda lutar contra o sentimento de schadenfreude, definido
com palavra alemã que tem sua origem etimológica derivada de schaden – adversidade,
dano, e freude
– alegria. Trata-se do prazer que o ser humano sente com a desgraça alheia. A
própria Bíblia parece reconhecer esta “alegria”, quando a estabelece como não
devemos nos alegrar com o fracasso do inimigo, no Livro dos Provérbios 24h17min
– 18:
Podemos assistir o schadenfreude atingindo a
massa ao nos deparamos com os altos índices de ibope alcançados quando os
telejornais mostram prisões, e os suspeitos são filmados sendo algemados e
expostos ao público, quando aglomerados de pessoas vão a locais de crime
“assistir” ao vivo os acontecimentos, quando investigados são execrados pela
opinião pública antes mesmo de serem julgados. É o que o povo, em sua simples
sabedoria e linguagem, chama de “alma lavada”.
A audiência alcançada pelos últimos capítulos da
novela das nove reforça esse conceito. Ali, todos têm antecedentes criminais
dos mais variados: tentativa de homicídio, cárcere privado, lesão corporal,
abandono de incapaz, furto, estelionato, exploração de trabalho infantil, extorsão, roubo, rufianismo e homicídio.
Resta saber se seríamos atingidos pelo schadenfreude
ao ver os “bons” também punidos, depois de conhecer
profundamente os motivos de cada um, ou se a sensação de “alma lavada” também
seria sentida em relação à impunidade das personagens com “bons motivos”,
absolvidas por conhecermos a história inteira de cada um. Essa chance os
inocentes da vida real não alcançam!
Ilana Casoy é especialista em
Criminologia pelo IBCCRIM, com Treinamento em Investigação e Perícia Forense em casos de
homicídio pelo U.S. Police Instructor Teams. Atualmente, é membro do NADIR
– Núcleo de Antropologia do Direito da Universidade de São Paulo. Autora dos
livros: Serial Killer – Louco ou Cruel Serial killers – Made in Brasil, O
Quinto Mandamento – Caso de Polícia e A Prova é a Testemunha.
Fonte>http://id.discoverybrasil.uol.com.br/ilana-casoy-saiba-mais-sobre-schadenfreude/
Fonte>http://id.discoverybrasil.uol.com.br/ilana-casoy-saiba-mais-sobre-schadenfreude/
Nenhum comentário:
Postar um comentário