Infância
em Vermelho
Meninos do tráfico, meninos de rua, menores
abandonados… Tanto já foi escrito, descrito, pensado, estudado. Nada me
convence. E assim foi nascendo uma idéia, peça por peça, como num quebra-cabeça
de um milhão de peças.
Em pesquisa americana sobre
serial killers famosos, são elencados “sintomas” comuns entre eles na infância
e adolescência, sendo as principais chamadas de “terrível tríade”: fazer xixi
na cama até idade avançada, crueldade com animais e outras crianças, atear fogo
–– e seguem outros como dores de cabeça, pesadelos etc. São como profecias se
instalando. As perguntas de sempre – nasce mau? Nasce bom? Influência do meio?
Trauma? Estudos e mais estudos. E a vida trazendo cada peça, e grudando uma na
outra.
Vou me lembrando dos serial killers que
entrevistei. Cada um e sua infância, quase que invariavelmente em vermelho.
Infâncias em vermelho. André Luiz Cassimiro, furtador de açúcar e comida.
Passava fome. Adilson do Espírito Santo, miserável, responsável aos seis anos
por cuidar de irmão recém-nascido, que largava para ir soltar pipa. Apanhava
todos os dias. Francisco Costa Rocha e os meninos transgressores,
homossexualidade adolescente, bebida, carros furtados, solidão, abandono.
Pedrinho e Botinha, sua gangue, brincadeira de criança grande, arma na cintura,
chefe de bando. Chagas e sua solidão, atirando pedras em gatos, abusado na mata
“ao lado” pelo amigo da avó, surrado na oitava desobediência com a vara que ele
próprio escolhia, de jatobá. José Paz Bezerra e o pai leproso, banhado e
cuidado por ele, criança, sem direito a sentir repulsa. Marcelo Costa de
Andrade nas ruas da Cinelândia, se prostituindo pelo pão de cada dia, rejeitado
por pai e mãe. Capetinha, fugido aos seis anos, na rua, responsável por seu
sustento e abrigo, a mesma idade que Isabela, imagine. Marcos Souel e sua mamadeira
de pinga e groselha, alimentado pela mãe bruxa, com seus guizos pendurados na
saia rodada e sapos enterrados pelo quintal. “Michele” crescendo em corpo de
Sergio, sua feminilidade presa em corpo masculino, na rua traste e no manicômio
rainha. Nelson e sua leve deficiência mental, cozinhando na casa errada, preso
e internado sem nem entender porque, esquecido ali por mais de 50 anos. Joel, o
maluco beleza, nem se lembra da infância, preso nos seus delírios de
super-homem e Hitler. Mais um André, agora Barboza, e suas duas mães, rei dos
telhados, escondendo-se de seu vizinho pedófilo embaixo da cama, machucado
despercebido pela mãe deficiente visual. Batoré, viu o pai matar a mãe e
morrer, homicida famoso antes mesmo de crescer.
Na minha observação, para contar sua história, a
pessoa finalmente tem de se organizar, ordenar seus pensamentos. Assim, ela
entende e eu entendo. Foi assim com Francisco, que gargalhando declarou que eu
fui a única que o compreendi, Leonardo da Vinci que era. Foi assim com André
Barboza, que chorou ao entender quem era, entre vítima e algoz. Foi assim com
Adilson, que chorou pela mãe que o espancava. Foi assim com Marcelo, que nunca
foi criança. Foi assim com Capetinha, assassinado recentemente da mesma forma
violenta que viveu. Foi assim com Marcos Souel, que sonha agora em ter uma
dentadura. Foi assim com Pedro, que me agradeceu por ouvir e registrar sua
história e me pediu: coloque aí Pedrinho Matador, ou ninguém saberá quem sou. A
identidade criminosa positiva, os ganhos e os “ganhos” do crime, a onipotência
infinita do adolescente, para quem a morte está há anos luz de distância e o
desastre jamais é iminente.
A pergunta que eu levo a eles é a trinca filosófica
jamais respondida: quem é você, de onde vem, para onde vai. Simples assim.
Ilana Casoy é especialista em
Criminologia pelo IBCCRIM, com Treinamento em Investigação e Perícia
Forense em casos de homicídio pelo U.S. Police Instructor
Teams. Atualmente, é membro do NADIR – Núcleo de Antropologia do Direito
da Universidade de São Paulo. Autora dos livros: Serial Killer – Louco ou
Cruel?, Serial killers – Made in Brasil, O Quinto Mandamento – Caso de Polícia
e A Prova é a Testemunha.
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